O PELADÃO DA PAUTA
- Digão Monzon
- há 1 dia
- 2 min de leitura
Minha pior experiência profissional foi tão surreal que, vista de longe, acabou virando um belo causo.
Como a história é pesada e o mundo é pequeno, vou economizar detalhes que facilitem demais a identificação do personagem.
Anos atrás, saímos em viagem para uma produção que passaria por diversas cidades do Brasil. Naquela época, eu vivia uma rotina quase incompreensível: acordava muito cedo, ia à academia e já estava trabalhando antes de boa parte da equipe sequer ter levantado da cama.
Logo na primeira parada, fomos para o litoral. O hotel ficava pertinho de uma praia famosa e, como a equipe precisou ser distribuída entre vários quartos, acabei hospedado com o colega que tinha menos tempo de casa.
Era justamente a pessoa com quem eu tinha menos intimidade.
Nada disso, porém, diminuiu o entusiasmo do cidadão.
Eu tinha ido à academia ainda de madrugada, voltado para o hotel, tomado banho e já estava pronto para sair quando ele finalmente acordou.
Na primeira oportunidade, depois do banho, resolveu aderir ao naturismo.
É exatamente isso que você está imaginando.
Lá veio o colega, completamente nu, circulando pelo quarto como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
A cena foi tão inesperada que eu simplesmente não reagi. Pensei que pudesse ter sido um descuido, um equívoco, um daqueles segundos constrangedores em que alguém esquece a toalha e rapidamente percebe o erro.
Mas não.
O peladão ainda tentou puxar assunto.
Talvez, na cabeça dele, praia, verão e hotel formassem algum tipo de autorização cósmica para aquilo. Na minha, continuávamos sendo dois profissionais praticamente desconhecidos, dividindo um quarto durante uma viagem de trabalho.
Contei para o restante da equipe. Vieram risadas, desconfiança e perplexidade.
É importante reforçar: não era uma viagem de férias entre amigos. Estávamos trabalhando. Éramos colegas e, naquele momento, quase estranhos.
Na hora de dormir, ele se cobria com um lençol, mas deixava o traseiro para fora. Parecia uma espécie de assinatura da obra.
Nas paradas seguintes, começou uma operação silenciosa para evitar dividir o quarto com ele. Ninguém dizia abertamente, mas todos faziam contas, inventavam combinações e se movimentavam rápido quando chegava a hora de distribuir as chaves.
A atitude era como cheiro de sovaco: todo mundo percebia, menos o responsável.
O auge aconteceu meses depois. Estávamos na Serra Gaúcha, em pleno inverno, quando recebemos a notícia de que o peladão da pauta havia atacado novamente — desta vez, com outro colega de quarto.
Pronto. O verão do litoral já não podia mais ser usado como justificativa.
Nunca entendemos exatamente o que ele pretendia comunicar com aquilo. O efeito, porém, era sempre o mesmo: constrangimento, fuga coletiva e uma quantidade enorme de histórias contadas às escondidas.
Rimos muito – ele foi demitido.


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