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TRABALHE COM O QUE VOCÊ AMA E VOCÊ NÃO VAI AMAR MAIS NADA

O coach picareta vai te falar:

“Trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida.”

O que ele não explica é que, na verdade, você não trabalha. Você sofre, se distrai, perde a compostura e ainda corre o risco de estragar uma coisa da qual gostava.

Hoje, evito produzir shows de bandas que realmente significam alguma coisa para mim. Aprendi a separar muito bem as funções: dos artistas e eventos que amo, eu sou público.

Quero comprar ingresso, encontrar os amigos, cantar errado, sair suado e, dependendo da noite, perder um pouco da dignidade. Faço questão de ficar longe de planilhas, credenciamento, passagem de som, carregamento, camarim, horário de van e qualquer pessoa perguntando onde está o adaptador que alguém jurava ter guardado dentro de uma caixa preta.

Isso não significa que eu tenha parado de trabalhar com shows.

Já estive na produção de inúmeros artistas sertanejos, pop, funk e outros fenômenos capazes de provocar comoção coletiva. Pessoas choram, gritam, tremem, passam mal e atravessam estados para vê-los.

Para mim, invariavelmente, são ilustres desconhecidos.

Não conheço as músicas. Não sei qual é o grande sucesso. Não faço ideia se o refrão que enlouquece vinte mil pessoas foi lançado ontem ou se toca há dez anos em todo posto de gasolina do país.

E isso é excelente.

Sem qualquer envolvimento emocional, consigo prestar atenção no que realmente importa: deixar tudo funcionando, garantir que o artista esteja no palco no horário combinado e fazer com que público, equipe e estrutura atravessem a noite com segurança e qualidade.

Não me importa se é playback. Meu compromisso é garantir que até o playback aconteça com excelência.

A distância ajuda. Enquanto alguém pede uma selfie ou entra em colapso porque o cantor passou pelo corredor, posso continuar procurando a pessoa que desapareceu com a chave do camarim.

Agora pense na última vez que o Cólera tocou em Foz do Iguaçu.

Eu estava ali como fã. Dei um rolê com a banda, fomos ao Paraguai fazer compras e, na volta, almoçamos juntos. Saímos do restaurante cantando Tim Maia — uma cena pouco provável, mas absolutamente verdadeira.

À noite, incendiamos o mundo como se o amanhã fosse um boato mal-intencionado.

Você realmente acha que eu conseguiria passar aquele show nos fundos do palco, conferindo cabos, horários, água, retorno, lista de convidados e tentando descobrir por que alguém resolveu ligar uma cafeteira na mesma extensão dos equipamentos de áudio?

Eu não queria garantir que o show acontecesse.

Eu queria que ele acontecesse comigo.

Queria estar no meio daquilo, pulando, cantando e fingindo que meus joelhos ainda pertenciam aos anos 1990.

Esse é o problema de trabalhar com o que você ama: alguém precisa manter a postura, conferir horários e resolver problemas enquanto todo mundo perde a cabeça.

Quando a banda importa de verdade, prefiro perder a cabeça junto.

Produzir um show exige distância, controle e paciência com perguntas idiotas.

Ser fã exige proximidade, descontrole e a liberdade de fazer algumas perguntas idiotas.

Por isso, hoje separo bem as coisas.

Quando o artista não significa nada para mim, trabalho para que ele signifique tudo para alguém.

Quando significa tudo para mim, prefiro não usar credencial.

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