ENTRE O LIMBO, A SOMBRA E A SOBRECARGA
- Digão Monzon
- 3 de ago.
- 4 min de leitura
Todo mundo foi contratado. Só esqueceram de contratar quem organizaria todo mundo.
Quando uma equipe é multidisciplinar, experiente e realmente comprometida com o resultado, a tendência natural é assumir mais responsabilidades do que aquelas previstas no contrato.
Não é raro que nós, da Video Up, sejamos contratados para fazer uma transmissão, produzir um aftermovie ou registrar um evento e, de repente, estejamos envolvidos no cerimonial, na divulgação, no cronograma, na estética e na organização do palco.
Eu mesmo voltei para a produção de palco depois de muitos anos afastado desse universo por causa disso.
Quando vejo, já estou marcando o chão com fita, repassando horários, conferindo entradas e tentando entender se alguém realmente sabe o que vai acontecer nos próximos dez minutos.
Isso acontece principalmente quando o proponente do evento tem pouca ou nenhuma experiência em produção.
E isso, de verdade, não é necessariamente ruim.
Você espera que o proponente de um congresso de oncologia seja especialista em câncer. Não que ele saiba qual microfone deve ser usado pelo palestrante ou qual sistema de som será necessário para a banda de encerramento.
O mesmo vale para um evento de churrasco.
Ou o sujeito cuida da carne ou deixa a carne queimar enquanto tenta resolver o som.
O problema não é o proponente não saber produzir o evento.
O problema é ninguém prever a necessidade de contratar quem saiba.
Nos últimos anos, tenho percebido que o valor desse trabalho diminuiu. As pessoas ainda querem pagar pelo que conseguem enxergar: a câmera, a fotografia, o painel de LED, a transmissão, o palco e o vídeo publicado no dia seguinte.
Quanto mais palpável a entrega, melhor.
Planejamento, coordenação, conferência e redundância de verificações passaram a ser tratados quase como luxo.
Só que um evento não é apenas uma soma de fornecedores.
É uma sequência de dependências.
A organização quase nunca aparece quando funciona.
Ela só se torna visível quando falta.
Todo evento é, em alguma medida, uma operação de superação instantânea de imprevistos. A diferença é que uma boa produção diminui a quantidade de imprevistos que precisam virar emergência.
Quando isso não acontece, surgem os limbos.
O limbo é aquela parte do evento que ninguém previu, ninguém conferiu e ninguém assumiu.
O arquivo existe, mas ninguém testou.A atração foi contratada, mas ninguém alinhou a operação.O cronograma mudou, mas ninguém avisou quem precisava saber.
No evento, a frase “alguém deve estar vendo isso” costuma ser apenas o nome educado do limbo.
O limbo é o território das tarefas que todos consideram importantes, mas ninguém reconhece como suas.
O fenômeno contrário também acontece.
Na contramão do limbo, vem a sombra.
Hoje, como todo mundo acredita entender um pouco de comunicação, é comum encontrar vários profissionais com funções parecidas contratados para o mesmo evento.
Tem fotógrafo, filmmaker, cinegrafista, social media, storymaker, influenciador e criador de conteúdo.
O problema não está na existência dessas funções. Todas podem ser importantes.
O problema aparece quando ninguém define o que cada uma deve produzir, para quem, em qual momento e com qual finalidade.
Sem coordenação, diversidade de profissionais não significa diversidade de entregas.
Todo mundo registra a chegada do público, o palco, o discurso e o encerramento.
Mudam o equipamento, o enquadramento e o nome da função, mas a entrega permanece quase a mesma.
Um profissional fica na sombra do outro, com pequenas diferenças que muitas vezes não justificam o investimento.
A preocupação do contratante, quase sempre, é demonstrar que o evento foi um sucesso.
Com perrengue ou sem perrengue.
E, nesse esforço, acaba contratando muita gente para mostrar a mesma coisa e pouca gente para pensar no que ainda não foi resolvido.
De um lado, sobra.
Do outro, falta.
E quando sobra de um lado e falta do outro, alguém precisa assumir o que não foi planejado, pensado ou preparado com antecedência.
É aí que começa a sobrecarga.
A equipe contratada para filmar começa a organizar a entrada de palco. O responsável pelo conteúdo passa a conferir a operação. O dono do evento, que deveria acompanhar o público e observar o resultado, termina o dia apagando incêndios que nem sabia que existiam.
A sobrecarga não é sinal de eficiência.
É sinal de que alguma responsabilidade ficou sem dono e acabou sendo assumida por quem percebeu o problema primeiro.
Muitas vezes, uma estrutura incompleta só consegue funcionar graças à boa vontade de quem ainda se importa com o resultado.
E quase sempre quem paga o pato é o dono do evento.
É ele que será cobrado quando algo der errado.
O que não foi planejado não desaparece.
Apenas será resolvido depois, com menos tempo, mais pressão, mais desgaste e, normalmente, por um preço maior.
Talvez o problema esteja justamente na dificuldade de perceber a produção como uma entrega.
Porque produção não é uma estrutura bonita, um vídeo, uma fotografia ou um arquivo enviado no fim do trabalho.
Produção é o que conecta todas essas coisas.
É alguém olhando para o todo enquanto cada fornecedor olha para a própria parte.
É alguém perguntando, conferindo e testando antes.
Percebendo o espaço entre uma responsabilidade e outra.
E impedindo que esse espaço vire limbo, sombra ou sobrecarga.
Moral da história?
Não tem.
Mas deveria ter produção.



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